O risco de resistência aos antibióticos no tratamento da gonorreia

Pelo menos 78 milhões de pessoas no mundo são afetadas pela gonorreia, que é causada pela bactéria Neisseria gonorrhoeae, também conhecida como gonococo. Esse tipo de bactéria apresenta determinadas propriedades que a torna mais resistente aos antibióticos.

Devido a isso, desde 2013, novas orientações com relação ao tratamento estão sendo adotadas, uma vez que os tratamentos antigos estavam desatualizados em razão da resistência.

A resistência continua a ocorrer, agora também contra a terapia de combinação de antibióticos. No entanto, não se constatou nenhum caso de tratamento não eficaz até o momento.

A maior preocupação médica quanto às bactérias resistentes ao tratamento da gonorreia é haver a incapacidade de evitar as consequências nefastas da infecção com o gonococo.

Saiba mais sobre risco de resistência aos antibióticos no tratamento da gonorreia.

Fatos sobre a resistência da bactéria da gonorreia aos antibióticos

As informações médicas obtidas de 77 países constatam que a resistência aos antibióticos está fazendo com que a infecção pela gonorreia esteja se tornando cada vez mais difícil de tratar.

Essas bactérias são particularmente mais desenvolvidas e inteligentes. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), sempre que se utiliza uma nova classe de antibióticos, as bactérias conseguem evoluir e criar resistência a eles.

A OMS vem registrando resistência generalizada aos antibióticos mais antigos e, portanto, mais acessíveis e baratos. Em determinados países, principalmente nos de maior renda, onde a vigilância é melhor, existem casos de gonorreia que não podem ser tratados por qualquer tipo de antibiótico conhecido atualmente.

Para os especialistas da OMS, esses casos podem estar sendo apenas a ponta do iceberg, já que faltam sistemas apropriados para diagnosticar e registrar infecções que não podem ser tratadas nos países de baixa renda, onde a infecção é bastante comum.

A gonorreia é uma doença sexualmente transmissível bacteriana que pode atingir os órgãos genitais, o reto e a garganta. As suas complicações podem afetar de forma irremediável tanto homens quanto mulheres, principalmente a doença inflamatória pélvica e a gravidez ectópica, nas mulheres, além da infertilidade e do maior risco de HIV em ambos os sexos.

Para a disseminação da infecção estão contribuindo de forma relevante a falta de uso de preservativo, o crescimento da urbanização e o aumento de deslocamento das pessoas, além das baixas taxas de detecção da infecção e de inadequado ou falho tratamento.

Confira no infográfico abaixo alguns sintomas da gonorreia:

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A eficácia dos tratamentos disponíveis para gonorreia

Atualmente, para o tratamento da gonorreia é recomendada a terapia combinada, ou seja, a união de cefalosporina de terceira geração, preferencialmente a ceftriaxona, na proporção de 1 grama, e a macromida Azitromicina, na dose de 1,5 grama.

Trata-se de uma dose única. A ceftriaxona é injetada na veia ou no músculo e, se o seu uso não for possível, alternativamente deve ser aplicada 800 mg de Cefixima, além de uma dose de cefalosporina de terceira geração por via oral.

Havendo a comprovação de sensibilidade, como alternativa pode ser utilizada uma dose de Cefixima reduzida para 400 ml, ou ciprofloxacina (fluoroquinolona) de 500 ml, ou ainda Ofloxacina de 400 ml, além de uma dose única de 1,5 g de Azitromicina.

Essas doses são recomendadas para infecções com gonorreia na uretra, no cervix, no reto e na garganta.

Caso a infecção se espalhe para outros órgãos, como o epidídimo, os testículos e a pelve, ou, mesmo, se a conjuntiva dos olhos for afetada, podem ser indicados outros antibióticos.

Nesses casos podem ser usados a tetraciclina, a doxiciclina, o nitronimidazol, o Metronidazol, o amnoglicosídeo e a Espectinomicina, que, da mesma forma que a ceftriaxona, podem ser utilizados também no tratamento de mulheres grávidas e lactantes.

Razões para o uso de terapias de combinação

A terapia de combinação deve ser usada, em primeiro lugar, para evitar que as bactérias mais resistentes ao antibiótico sobrevivam e se espalhem pelo organismo, podendo contaminar outras pessoas.

Com a terapia combinada, o outro antibiótico deve funcionar. Além disso, possíveis agentes patogênicos adicionais, como, entre outros, a clamídia, podem ser também eliminados pelo antibiótico.

Os antibióticos utilizam mecanismo diferentes para eliminar as bactérias ou impedir sua proliferação. A penicilina é uma espécie de protótipo de antibióticos betalactâmicos. Esse título se baseia na estrutura química do grupo de antibióticos de igual teor, que possuem um anel betalactâmico.

Além de penicilina, os antibióticos betalactâmicos também incluem Cefalosporinas e carbapenem e seu ponto de ataque é a parede celular das bactérias. Outros antibióticos que interferem na síntese da parede celular são as monobactamas e a vancomicina.

As bactérias possuem, além da parede, uma membrana celular, que pode ser atacada por polimixinas e daptomicina. As sulfonamidas e trimetropim utilizam o mecanismo bacteriano do ácido fólico como alvo.

Desta forma, como o ser humano não pode produzir ácido fólico, um ataque através dessa via metabólica não prejudica as células humanas.

As quinolomas são inibidores da girasse, uma enzima que separa a dupla cadeia de DNA da bactéria em duas cadeias, fazendo com que ocorra a síntese e a multiplicação das bactérias. Essa situação é impedida pela rifampicina.

No caso das tetraciclinas e macrólidos, o alvo é a síntese de proteínas. Os macrólidos inibem a subunidade do ribosssomo de duas unidades. As tetraciclinas, estroptomicinas, getamicinas, canamicina e amicacina inibem a pequena unidade, um ponto de ataque mais favorável, uma vez que os ribossomos e suas subunidades diferem das células humanas.

Os macrólidos no tratamento da gonorreia

A Azitromicina, eritromicina, roxitromicina e claritromicina são macrólidos, que agem na inibição da síntese das proteínas das bactérias. As bactérias possuem um ribossomo 70-S composto por RNA e proteínas.

A unidade S representa uma constante de centrifugação Svedberg não linear para a descrição da massa. No interior da célula, o ribossomo 70-S é separado em duas subunidades, 50-S e 30-S, que se reúnem para ligar cadeias de aminoácidos a peptídeos e proteínas.

Embora as células humanas também possuam ribossomos necessários para a biossíntese de proteínas, os ribossomos humanos possuem uma estrutura diferente, com subunidades 60-S e 40-S que se reúnem num ribossoma 80-S.

Diante disso, os macrólidos apenas atacam os ribossomos bacterianos, ligando-se à unidade 50-S e a bloqueando, de forma que não pode mais ocorrer a síntese de proteínas.

Contudo, os macrólidos também apresentam efeitos colaterais, como a inibição de uma enzima hepática, o citocrono P 450 tipo 3ª4, ou CYP3A4, que degrada muitos medicamentos.

Essa condição pode interferir com outros medicamentos, que, posteriormente, podem se tornar efetivos por mais tempo. Além disso, os macrólidos também podem prejudicar o fígado e prolongar o tempo QT, um período do ciclo cardíaco.

Se uma bactéria for resistente a um macrólido, ela também se torna insensível aos outros através da resistência cruzada.

Entenda os mecanismos de ação antibiótica:

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Como se dá a resistência da bactéria Neisseria gonorrhoeae aos antibióticos

Quando falamos em resistência aos antibióticos, estamos nos referindo ao fato de que uma bactéria é menos sensível ou completamente insensível ao medicamento usado para seu combate.

Existem razões para que as bactérias desenvolvam resistência de forma natural, ou mesmo que criem etapas para serem levadas à resistência.

Muito embora as bactérias tenham como desligar sua função de revisão quando o genótipo é duplicado, acontecem outras mutações que podem causar a resistência. A medicina acredita que as bactérias no solo são um reservatório de genes de resistência aos antibióticos.

Esse reservatório é conhecido como resistossoma. As bactérias no solo precisam se defender contra uma grande variedade de toxinas ambientais, o que faz com que se tornem bastante resistentes ao longo de sua evolução.

Algumas vezes, os genes de resistência individuais são mobilizados e convertidos em seções do cromossomo bacteriano, que contém a informação genética, ou em um plasmídeo que, além do seu gene, também possuem genes que permitem incorporar genes de outras bactérias.

Essas seções, ou integrons, podem fazer o seu próprio caminho, infiltrando-se em outras bactérias e levando a propriedade de resistência ali codificadas. Além disso, existe também os transposon, um gene de salto que pode mudar sua posição na cadeia de DNA.

Ao fazer a mudança dos genes de resistência, podem tornar possível a transferência de genes horizontal, que vai atingir as bactérias que contaminam os seres humanos.

Conheça o processo de resistência a antibióticos da bactéria Neisseria gonorrhoeae:

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Causas da resistência da Neisseria Gonorrhoeae a antibióticos

O gonococo que provoca a gonorreia já se tornou resistente à penicilina, às tetraciclinas e às quinolomas. Essa resistência aconteceu de forma rápida, podendo se atribuir a diferentes causas.

Entenda com detalhes as principais causas da resistência mencionadas acima:

Erro no uso de antibióticos

O uso incorreto ou frequente de antibióticos pode criar a resistência, além de sua ingestão errada, como, por exemplo, interromper a terapia prescrita quando não houver mais sintomas, em vez de manter a prescrição médica.

Além disso, existem portadores que não são tratados por não apresentarem sintomas, e isso inclui em torno de 10% dos homens e pelo menos 50% das mulheres. Os portadores, portanto, servem como uma central para as bactérias, que se espalham através do contato sexual.

Cepas mais resistentes selecionadas

Quando os antibióticos são usados mais frequentemente, as cepas bacterianas se tornam mais selecionadas e mais resistentes. Através dessa seleção, torna-se mais difícil lutar contra elas.

O maior problema do uso de antibióticos é que, em alguns países, eles estão disponíveis de forma gratuita, não havendo a necessidade de receita médica para ter acesso a eles.

A maior parte dos pacientes não sabe por quanto tempo tomar, qual antibiótico usar e qual a dose adequada. Ao se administrar uma dose muito baixa, não se cria condições para matar as bactérias, e isso também pode provocar resistência.

Além disso, o uso de um único antibiótico em vez da terapia combinada também é uma causa para o aumento da resistência.

Propriedades das bactérias

A natureza da bactéria Neisseria gonorrhoeae também é uma causa da resistência, já que se trata de um organismo muito versátil, que pode alterar sua superfície de maneira que o homem desenvolva imunidade contra ela.

As Neisserias também podem trocar plasmídeo entre elas, uma condição denominada transferência horizontal de genes. Esses plasmídeos são estruturas de DNA circulares dentro da célula, onde as resistências podem ser codificadas.

Da mesma forma que o genoma da bactéria, os plasmídeos também podem ser copiados. A resistência, portanto, é passada através da descarga do plasmídeo copiado e sua inclusão em outra bactéria.

A bactéria também pode transmitir cópias do plasmídeo para que uma tensão total possa se tornar relativamente menos suscetível a qualquer substância de forma relativamente rápida.

Resistência primária, secundária e adquirida

A resistência das bactérias aos antibióticos pode ser classificada em primária e secundária.

A primária é também referida como resistência natural, um tipo de resistência que a bactéria naturalmente possui. Assim, por exemplo, as Cefalosporinas normalmente são ineficazes contra a listeria e os enterococos. Outro caso é a vancomicina, que é uma molécula muito grande para passar pela membrana celular da maior parte das bactérias gram-negativas.

A resistência secundária é aquela conseguida através da evolução, baseadas nas mutações espontâneas ou na transmissão ou absorção de DNA com genes de resistência. Os genes de resistência podem ser encontrados nos plasmídeos, que podem ser administrados por conjugação.

Nesse processo de conjugação, duas bactérias se conectam através de pili, protuberâncias alongadas, onde uma cópia de um plasmídeo pode ser administrada.

Outras formas de administração de genes são ainda a transdução, quando um bacteriófago (vírus que ataca as bactérias), além de sua própria informação genética e outras peças de genes cortadas, são transmitidas para outra bactéria. Durante a transformação, essas bactérias absorvem DNA livre.

Mecanismos de bomba (bombas de efluente)

Determinadas bactérias apresentam bombas nas membranas. Essas bombas, frequentemente, são encontradas nas bactérias gram-negativas, passando pela membrana interna e externa da bactéria e funcionando com o consumo de energia, ou trocando a substância para serem bombeadas com íons de hidrogênio.

A energia necessária é liberada pela clivagem de ATP, ou trifosfato de adenosina, em ADP, o fosfato de adenosina, e fosfato.

Os mecanismos de bomba não são muito específicos do substrato, podendo expulsar muitas substâncias diferentes, como corantes, sais biliares e medicamentos (nesse caso, os antibióticos).

As bactérias têm a propriedade de acelerar ou de aumentar a função de bombeamento e, quando uma estirpe de bactérias é exposta aos antibióticos, pode ocorrer um aumento elevado da resistência a muitos antibióticos depois da elevação da regulação da bomba.

Destruição de antibióticos

Um bom exemplo de destruição de antibióticos são as betalactamases que algumas bactérias podem produzir. As betalactamases são enzimas que podem ser anexadas a alguns antibióticos betalactâmicos, podendo destruí-los posteriormente.

A medicina desenvolveu inibidores das betalactamases que, por sua vez, se ligam e bloqueiam essas enzimas. Os inibidores de betalactamases são eficazes apenas quando combinados com antibióticos betalactâmicos, que ampliam o espectro de sua ação.

Mudanças na estrutura-alvo

Macrólidos, a exemplo da Azitromicina, se ligam a uma subunidade dos ribossomos bacterianos e, ao alterar essa subunidade, a ligação pode ser prevenida.

Assim, por exemplo, grupos de metilo ficam ligados, o que leva a alterar a estrutura de forma significativa.

Outro modelo de resistência é a mudança na estrutura-alvo das penicilinas, as denominadas PBP, ou proteínas de ligação à penicilina, das bactérias, que residem nas paredes celulares, estando envolvidas na síntese dos blocos de construção da parede celular, os peptidoglicanos.

Os Mbps tem a capacidade de ligar a penicilina facilmente e, pelas proteínas de ligação alternativas, o local de ligação é perdido, fazendo com que a bactéria se torne resistente.

Mudança da textura da superfície

A Neisseria possui uma superfície bastante variável, o que torna impossível ao sistema imunológico lembrar sua textura como uma estrutura de reconhecimento, impedindo a produção de anticorpos específicos para criar imunidade. Dessa forma, não existe uma vacina contra a gonorreia.

Algumas alterações na membrana da bactéria podem fazer com que os antibióticos passem pela membrana, ou podem encolher os proso para impedir que os antibióticos possam passar.

Veja abaixo o resumo das causas da resistência da gonorreia aos antibióticos:

Causas da resistência da Neisseria Gonorrhoeae a antibióticos
  • Erro no uso de antibióticos
  • Cepas mais resistentes selecionadas
  • Propriedades das bactérias
  • Resistência primária, secundária e adquirida
  • Mecanismos de bomba (bombas de efluente)
  • Destruição de antibióticos
  • Mudanças na estrutura-alvo
  • Mudança da textura da superfície

O risco de resistência aos antibióticos no tratamento da gonorreia

O maior receio da medicina é o surgimento de uma superbactéria, que seja imune a todos os antibióticos atualmente disponíveis, o que poderia implicar em surtos inevitáveis de gonorreia.

O tratamento pode ser bastante difícil em pacientes com deficiência imune, principalmente entre as lactantes, os idosos, os enfermos crônicos ou pacientes que estejam passando por quimioterapia ou tratamento de drogas imunodepressoras.

A resistência aos antibióticos, de acordo com a OMS, vem provocando cerca de 700 mil mortes por ano. Embora haja resistência a antibióticos por parte de uma série de bactérias, o aumento nas taxas de resistência da Neisseria não pode ser desprezado.

As pesquisas mostram que 42% das cepas testadas se tornaram resistentes às tetraciclinas, enquanto 80% mostraram resistência ou sensibilidade reduzida à penicilina. A resistência às Cefalosporinas vem aumentando, sendo estimada atualmente em 12%. A menor resistência é a ceftriaxona, que deve ser administrada de forma parental, através de injeções no músculo ou na veia.

Veja no gráfico abaixo a porcentagem de resistência da Neisseria Gonorrhoeae a diferentes antibióticos ao longo de 10 anos:

Complicações da gonorreia não tratável

As principais complicações da gonorreia não tratável são a infecção pélvica crônica e a infertilidade. Além disso, também pode ocorrer infecção da conjuntiva dos olhos, levando o portador à cegueira.

No caso de recém-nascidos, pode ocorrer a transmissão durante a passagem pelo canal do parto, quando a mãe está infectada pela bactéria Neisseria gonorrhoae. Nesse caso, a bactéria passa da mucosa vaginal para a conjuntiva do bebê.

Há alguns anos, a profilaxia de Credé era administrada, com uma solução de nitrato de prata administrado logo após o nascimento. Essa medida não é mais exigida, uma vez que o canal do parto deve ser reabilitado antes. Havendo necessidade de medicar uma infestação bacteriana da conjuntiva, podem ser usados colírios contendo antibióticos.

Pode também ocorrer a denominada infestação disseminada, através da corrente sanguínea, ou seja, a bactéria pode se espalhar por todo o corpo, causando sintomas correspondentes.

As complicações podem ocorrer com maior frequência a partir do momento em que os antibióticos se tornam ineficazes e a determinação da resistência pode levar tempo antes que se encontre um agente adequado para combater a infecção.

Monitoramento da resistência aos antibióticos

A OMS possui um programa mundial de vigilância antimicrobiana gonocócica, que monitora as tendências da gonorreia resistente aos medicamentos.

Os dados comprovam que a bactéria apresenta resistência generalizada à ciprofloxacina, aumento da resistência à Azitromicina e o aparecimento de resistência ao tratamento de último recurso, com Cefalosporinas de espectro prolongado, Cefixima oral ou ceftriaxona injetável.

Na maior parte dos países, as Cefalosporinas de espectro prolongado são o único tipo de antibiótico que ainda se mostra efetivo para o tratamento de gonorreia. A OMS, diante dessa situação tem emitido recomendações atualizadas de tratamento, aconselhando o uso de dois antibióticos, a ceftriaxona e a Azitromicina.

Medidas contra o risco de resistência a antibióticos

Hoje existe uma corrida entre o desenvolvimento de novos antibióticos e a criação de resistência por parte das bactérias. A resistência, contudo, não pode ser prevenida, mas, com uma ação conscienciosa, sua velocidade pode ser reduzida.

A situação exige, acima de tudo, a informação adequada nos tratamentos, para que os antibióticos sejam usados de forma correta.

O uso de antibióticos sem prescrição é ainda praticado em alguns países, o que contribui para o desenvolvimento da resistência das bactérias, já que não são usados antibióticos controlados.

Outro sério problema é o uso de antibióticos em animais durante a engorda. Hoje, utiliza-se os mesmos antibióticos que os usados em pessoas para tratar qualquer doença e isso também provoca o desenvolvimento da resistência.

A proteção de dados impede a necessária informação

Existe uma grande falta de dados de consumo de antibióticos, de dados de resistência e de pessoas doentes. Em alguns países, a gonorreia não precisa mais ser registrada. Contudo, em razão da resistência, está se revendo essa posição.

A obrigação do registro deve ser reimplantada para que se tenha mais informações sobre o uso de antibióticos e a resistência das bactérias.

A OMS vem trabalhando com o GERMAP, um atlas de antibióticos, mas ainda é preciso analisar mais rapidamente a situação, com uma triagem em tempo real para genes de bactérias correspondentes, com alta confiabilidade.

Além disso também deve se considerar maior quantidade de exames, uma vez que, principalmente nas mulheres, a gonorreia pode não apresentar sintomas e, mesmo assim, trazer graves consequências.

Cada pessoa deveria informar seus parceiros ou o parceiro dos últimos 60 dias no caso de haver uma infecção, pedindo para fazer um teste, se necessário. Dessa forma, poderia ser reduzido o reservatório de bactérias.

Para se evitar o desenvolvimento de resistência, e não apenas da Neisseria, é preciso haver maior colaboração entre os organismos de saúde dos países em âmbito mundial. De outra forma, permite-se introduzir a resistência entre os países.

Além disso, também é importante estabelecer um acordo entre a medicina veterinária e a humana, já que, atualmente são consumidas toneladas de antibióticos, tanto pelos animais quanto pelos seres humanos.

Seleção mais cuidadosa de antibióticos

A escolha do antibiótico deve ser feita com base na doença apresentada. Em hospitais, por exemplo, existem outros germes e bactérias, gerando infecções acima do esperado.

As diretrizes médicas fornecem aos profissionais recomendações para uma terapia calculada e, dessa forma, é preciso que os médicos estejam informados sobre as novas orientações. Havendo um diagnóstico mais criterioso, o uso de antibióticos pode ser ajustado conforme a necessidade.

Também não pode haver dosagens erradas. Se a dose de antibióticos for muito baixa, as bactérias conseguem sobreviver ao tratamento. Se o tratamento é maior do que o necessário, por sua vez, o paciente pode ter efeitos colaterais indesejados. Assim, é preciso encontrar um equilíbrio no uso do medicamento.

A descoberta da resistência das bactérias

A resistência das bactérias pode ser determinada pela criação de uma cultura em placa de ágar. Nessa análise, determinados antibióticos de testes podem ser aplicados, observando-se as bactérias ao redor deles, verificando se morrem ou se continuam a crescer sem impedimento. A cultura é chamada de antibiograma.

Com o resultado, é possível aplicar uma terapia com antibióticos de forma mais apurada. Dependendo do procedimento, ela pode ser escalada ou reduzida.

Na escalada, a terapia pode ser estendida com o uso de maior quantidade, servindo para evitar resistência ou para reduzi-la. Se as bactérias resistentes conseguem sobreviver, elas podem se espalhar.

No tratamento adequado, todas as bactérias precisam ser eliminadas, não se criando uma nova geração com maior resistência.

A responsabilidade do paciente na resistência das bactérias

Um dos fatores que podem levar à resistência é a duração da terapia. Muitas vezes, o paciente deixa de continuar o uso de antibiótico em face da ausência dos sintomas da gonorreia.

É preciso orientar o paciente para que entenda que o desaparecimento dos sintomas não quer dizer que a doença esteja eliminada. As bactérias podem continuar presentes no organismo, gerando resistência e contaminando outras pessoas.

O tratamento da gonorreia é feito normalmente com doses únicas para os medicamentos da terapia combinada, e isso facilita o tratamento, pelo menos com relação à duração. No entanto, o sucesso da terapia precisa ser monitorado depois do tratamento.

É preciso também especial atenção com relação à higiene, tomando os devidos cuidados não apenas nos hospitais, mas também em consultórios, evitando-se a criação de um reservatório de bactérias que possam ser transmitidos para outras pessoas.

No caso da Neisseria, a transmissão ocorre através de contato das mucosas e, nesse caso, o contato deve ser suprimido até que a infecção não esteja totalmente curada, ou seja, entre outros detalhes, é preciso se eximir de relações sexuais.

Existem doenças que podem ser completamente erradicadas com o uso de vacina. No caso da gonorreia, isso não é possível, mas sua colonização pode ser completamente eliminada através da terapia e das medidas higiênicas adotadas.

O homem é o único hospedeiro da Neisseria gonorrhoeae, e isso pode criar um objetivo médico: eliminar a bactéria em todos os seres humanos, erradicando-a da face do planeta.

Desenvolvimento de novos medicamentos

O desenvolvimento de novos antibióticos para tratamento da gonorreia apresenta atualmente apenas três novos medicamentos:

  • a solitromicina, que teve seu estudo de fase III concluído há pouco tempo;
  • a zoliflodacina, que encerrou um teste de fase II;
  • e a gepotidacina, , que também encerrou um teste de fase II.

O que ocorre é que desenvolver novos antibióticos não se torna atraente comercialmente para as empresas farmacêuticas, já que os tratamentos são feitos em períodos curtos de tempo, levando os medicamentos a se tornarem menos eficazes à medida que aumenta a resistência das bactérias.

Diante disso, a OMS está desenvolvendo parceria com a DNDI – Iniciativa de Drogas para Doenças Negligenciadas, com a criação da GARDP – Parceria Global de Pesquisa e Desenvolvimento de Antibióticos.

A GARDP é uma organização de pesquisa sem fins lucrativos que busca uma resposta para o problema e uma de suas prioridades é desenvolver novos medicamentos para a gonorreia.

Prevenção da gonorreia

A gonorreia pode ser prevenida simplesmente através do comportamento sexual seguro, principalmente com o uso de preservativo.

A informação, a educação e a comunicação podem tornar possíveis práticas sexuais mais seguras, fazer com que as pessoas reconheçam mais rapidamente os sintomas das DSTs e leva-las a procurar os cuidados necessários.

As maiores barreiras para reduzir o número de infecções é a falta de conhecimento por parte das pessoas e a falta de treinamento de profissionais de saúde.

Muitas pessoas que estão infectadas com gonorreia não apresentam sintomas e, portanto, não são diagnosticadas ou tratadas. Quando os sintomas aparecem, os médicos apenas presumem ser gonorreia, prescrevendo antibióticos, mesmo que o paciente esteja com outro tipo de infecção.

O uso indiscriminado e inapropriado de antibióticos aumenta a resistência não só da gonorreia, mas também de outras doenças bacterianas.

Para o controle da gonorreia é necessário aplicar novas ferramentas e sistemas de prevenção, de tratamento e de diagnóstico precoce, além de fazer o rastreamento e o registro de novas infecções, de uso de antibióticos e de resistências ou falhas no tratamento.

Além disso, a medicina já está necessitando de novos antibióticos enquanto não se consegue uma vacina para a prevenção da infecção.

Fontes: